Ha uma frase que carrego comigo desde que comecei a olhar com honestidade para a minha propria trajetoria como mae: meu filho nao foi criado, ele sobreviveu. Nao escrevo isso para chocar, nem para me punir. Escrevo porque foi essa frase, dita para mim mesma em um momento de silencio raro, que abriu a porta para uma mudanca real dentro de casa.
O peso de reconhecer sem se afundar
Reconhecer que, em determinados momentos, criamos mais reacao do que direcao, mais sobrevivencia do que acolhimento, e doloroso. Mas existe uma diferenca enorme entre reconhecer um erro e se afundar nele. A culpa paralisante nao muda nada; ela so ocupa o espaco que poderia estar sendo usado para reparar.
De onde vem o ciclo
Ninguem educa a partir do zero. Educamos a partir do que vivemos, do que testemunhamos, do que sobrevivemos na propria infancia. Muitos pais e maes que hoje gritam, ameacam ou se ausentam emocionalmente estao repetindo, sem perceber, o unico modelo de autoridade que conheceram. Entender essa origem nao e desculpa. E o primeiro passo para interromper a repeticao.
O momento em que a consciencia chega
Existe um instante, na trajetoria de muitos pais, em que a consciencia chega antes da mudanca pratica, e esse intervalo entre perceber e conseguir agir diferente costuma ser o mais dificil de atravessar. E facil, nesse intervalo, cair na autocritica severa. Mas e justamente esse reconhecimento, sustentado com compaixao por si mesmo, que sustenta a mudanca de verdade.
Sobreviver nao e o fim da historia
Se voce reconhece pedacos da sua propria historia nesse texto, saiba que reconhecer nao e sentenca. Filhos que cresceram em ambientes de sobrevivencia podem, sim, reconstruir vinculo com os pais, e pais que reconhecem seus padroes podem, sim, oferecer aos filhos algo diferente do que ofereceram ate aqui. Nao existe prazo de validade para comecar a mudar.
O primeiro passo para deixar de fazer sobreviver e ter a coragem de admitir que, ate aqui, foi isso que aconteceu.
Da sobrevivencia para o porto seguro
E esse exatamente o deslocamento que busco construir com as familias que acompanho: sair de um ambiente onde se sobrevive, para um ambiente onde se pertence. Nao e sobre nunca errar, e sobre construir, aos poucos, uma casa que seja um porto seguro, mesmo quando as tempestades pessoais de cada um aparecerem.
Esse caminho nao se faz sozinho, e nao precisa ser feito sozinho.